8 de abril de 2009

Pois há futuro em nossas janelas


Pois há futuro em nossas janelas,
Como em minha boca, um gosto ocre,
Me pinta um amor de aquarelas
Que faz de teu fel um resto doce.

Embriagado de ti, em ti me rendo
Ao teu de mim desconhecido
Nem te perdendo, nem te vendo,
Me entrego cego, reconhecido.

E busco ternuras de calendário,
Aos teus encantos, por fim, rendido.
De mim mesmo, meu adversário,
Me perco em ti, seu teu querido.

E busco o doce em tuas mãos,
Nelas me agarro, sobrevivente,
Como quem nega a própria razão
Na desmedida que nos faz gente.

E à tua pele dou a tensão
De ser nela a pele minha.
E aqui te faço minha perdição,
Meu sonho, minha alquimia.

José Eduardo Teixeira Leite
Desejo Morte e Carambolas
Imagem: Alvaro Ennes

5 de abril de 2009

Revelação

Google Imagens


Queres saber quem sou?
Eu sou o que te olha e espia para te recolher
e depois guardar num lugar que é só meu.

...
Eu sou o que mergulha as mãos na tua vida
para sentir a minha voltar.

Pedro Paixão
Muito, Meu Amor





31 de março de 2009

O fruto de todas as estações

Rozu




Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua
e só depois
muito depois
se deixam morder.





28 de março de 2009

Espelho














Quero o teu coração para meu espelho,
pois no teu coração não me desminto.

Em Os quatro cantos do tempo, Obra Poética, 5ª

Imagem: Peter Frank/Solus/Veer/Corbis

26 de março de 2009

Elucidação


Na véspera de ti
eu era pouca
e sem
sintaxe
eu era um quase
uma parte
sem outra
um hiato
de mim.
No agora de ti
aconteço
tecida em ponto
cheio
um texto
com entrelinhas
e recheio:
um preciso corpo
um bastante sim.

Maria Esther Maciel 
Amor / Triz (1998)


Maria Esther Maciel. (Patos de Minas-MG, 01/02/1963). Poeta, ensaísta e ficcionista. É professora de Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da UFMG, com Doutorado em Literatura Comparada. Autora de diversos livros tais como Dos Haveres do Corpo, As Vertigens da Lucidez: poesia e crítica em Otávio Paz; A Dupla Chama: amor e erotismo em Otávio Paz; Vôo Transverso: poesia, modernidade e fim do século XX, etc...


22 de março de 2009

A dor





Dor é uma contração da vida.
Uma retração, um encolhimento.
Algumas dores chegam a se constituir como um nó
Que o corpo faz com ele mesmo.
Alegria é a vida sempre adiante.
Mas a dor também é vida.
A contração da vida quando em pré-parto.
Toda dor é um pré-parto.
Toda dor reinventa alguma coisa ou cria.
...
É preciso conversar com ela, perguntar do que precisa.
E atender.
É preciso perguntar o que ela tem a dizer e ouvir.
A dor vai embora quando se sacia ou esquece.
A vida é muito mais o que a gente inventa.

Viviane Mosé

Desato


Google Imagens
desconheço a autoria da imagem

20 de março de 2009

Intenção





Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra
meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me
Depois, não
me ensines a estrada.
A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.

Ilha / Raiz de Orvalho e Outros Poemas

18 de março de 2009

Depois de quase um mês sem Internet graças a incompetência e descaso da Net, eis-me aqui de volta.

Vou poupar-lhes dos detalhes que fizeram com que eu perdesse dias e horas ao telefone tentando resolver o problema, porque não vale a pena despender o pouco da energia que ainda me resta, com essa "coisa". Prefiro gastá-la com vocês.

Agradeço o carinho dos comentários e tão logo possa responderei a todos.

Beijos felizes por estar de volta,
Inês

19 de fevereiro de 2009

Podias estar aqui

















podias estar aqui,
onde os meus lábios terminam
e começa o mar dos meus pedaços

podias estar aqui,
na janela onde debruço a alma,
em gestos do meu rosto, a recordar-te

podias estar aqui,
só no teu rosto vi a aurora,
como nunca vi em mais algum.

António Paiva

Imagem: Miriam

Queridos amigos,
A partir de amanhã, 20/2, ficarei sem internet por
alguns dias devido a mudança de casa.
Beijos, Inês

15 de fevereiro de 2009

A árvore




 











Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram…

Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.

Yvette K. Centeno



até para podar é preciso delicadeza



Imagem: Mawá


13 de fevereiro de 2009

Desafio cidades





Este foi um desafio da Beatriz Vieira e tem as seguintes regras:
  1. Escolher o nome da cidade, atual ou da antiguidade, cujo nome ache o mais bonito entre todos os nomes de cidade que você conhece.
  2. Postar uma foto dessa cidade.
  3. Escrever algo, ou alguma referência sobre a cidade escolhida.
  4. Indicar três pessoas para fazerem a mesma coisa.

Escolhi Manaus, que significa mãe dos deuses em homenagem a nação indígena dos Manaós, não só pela beleza do nome, mas também por ser a terra onde brotei e finquei raizes até os 13 anos.

Situa-se na confluência dos rios Negro e Solimões. Dois Rios que se encontram mas não se misturam. Além das vastas belezas naturais, há também o belo Teatro Amazonas, comidas maravilhosas e um povo quentinho tal qual o calor de lá.

Inês

p.s.: Vou fugir à regra e deixar o desafio a quem se interessar em faze-lo.

10 de fevereiro de 2009

Em legítima defesa




 










Sei hoje que ninguém antes de ti
Morreu profundamente para mim.
...
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
Pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
Onde antes te encontrava e te posso encontrar
E ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e
Vives sempre mais.

Ruy Belo
Volume II


Imagem: Markus Arns

5 de fevereiro de 2009

Um ritmo perdido...











 









Se uma pausa não é fim
e silêncio não é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido, será acabado?

Ana Hatherly




1 de fevereiro de 2009

Pela luz dos olhos teus


Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...

Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...

Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.


Não me arrependo do que fui outrora

Porque ainda o sou.




Alberto Caeiro
O Pastor Amoroso


Imagem: Inês Queiroz / Dois Rios
(Patagônia Argentina)

Queridos amigos,
Ando sem tempo para retribuir as carinhosas visitas de vocês.
Tão logo me desvencilhe dos afazeres que me têm arrebatado
esse prazer, me farei novamente presente.




24 de janeiro de 2009

Foi para ti

Les Graves



Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida.

Mia Couto
Raiz de Orvalho e Outros Poemas