12 de maio de 2010

Ânsia

Clark Little



Não me deixem tranqüilo

não me guardem sossego

eu quero a ânsia da onda

o eterno rebentar da espuma.


Mia Couto

Raiz de Orvalho e Outros Poemas



5 de maio de 2010

Os olhos dela(s)


P'ra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...



José Régio
Quando eu nasci


À minha mãe, ( in memoriam )
pelos anjos que me traziam estrelinhas nas noites de São João

pelos Papais Noéis que "adivinhavam" todos os meus desejos
pelas vigilias nas noites de febre
pelos erros e acertos, pelos "sins" e pelos "nãos"
pela admirável coragem diante da vida e da morte
pelo que sou.


À minha irmã, Alana,
pela bravura em continuar tecendo a vida.




À todas as MÃES
que por estes rios navegarem.


Imagem: Elis Frigini

3 de maio de 2010

Os rios de mim












 









Corre um rio de minha boca
Corre um rio de minhas mãos
Dos meus olhos corre um rio.

Na verdade sofro de excessos,
Que me dão certo vocabulário.
Como derramar. Escorrer. Atravessar.
Tenho a impressão de que
tudo vaza em sobras.

Tenho dificuldade em caber.

Viviane Mosé
Rios - do livro Desato


Imagem: Joseph Hancock

28 de abril de 2010

Mãos de quem te espera














 


Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

As mãos e os frutos

Imagem: Angélica

9 de abril de 2010

Pedaços


Estou estilhaçada
silêncios saem da boca
mansos
estava desenhando

palavras
perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços que sou
quase infinita


Vera Lúcia Oliveira

Geografie d’Ombra. Veneza: Fonèma, 1989




Os sentimentos, em especial aqueles que doem, são como um jogo de
quebra-cabeça.
Há peças que, por alguma razão, sofrem algum tipo de dano em suas formas, porém voltam a se encaixar no jogo. Há outras, porém, que sofrem uma avaria tão significativa que, mesmo após inúmeras tentativas a fim de moldá-las e/ou restaurá-las, não mais conseguem se ajustar ao espaço que lhes fora destinado. Sempre haverá uma fresta.
O sentimento de perda se equipara a uma dessas peças avariadas, ou seja, continua fazendo parte do jogo, porém a evidência pelos danos sofridos ficará marcada, para sempre, pelos espaços vazios.




Oferecido pelo Ely

do blog Bobeiras em Geral






24 de março de 2010

A vida e as suas f(r)ases

Adonis Werther



- Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam idéias próprias.

- Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com idéias.

- Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem idéias.

- Aos 40 achamos que as idéias dos outros são todas nossas.

- Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter idéias.

- Aos 60 ainda temos idéias mas esquecemos de que estávamos a pensar.

- Aos 70 só pensar já nos faz dormir.

- Aos 80 só pensamos quando dormimos.


Mia Couto
Venenos de Deus, Remédios do Diabo
(fala do personagem Bartolomeu Sozinho)



Até onde me cabe opinar, as afirmações do personagem se encaixaram
tal e qual algumas fases da minha vida. Para opinar sobre as restantes, terei 
ainda que galgar mais alguns degraus, ou melhor dizendo, descer, rss...
Aliás, esse livro foi danado de bom de ler. Salve, Mia Couto!



22 de março de 2010

Deserto


























Percorro todas as tardes um
quarteirão de paredes nuas.
Nuas e sujas de idade e ventos.

...

 
Caminho todas as tardes por estes
quarteirões desertos, é certo.
Mas nunca tenho certeza se estou
percorrendo o quarteirão deserto
Ou algum deserto em mim.



Manoel de Barros
Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo



16 de março de 2010

Baú de memórias

















C
omo quando se tira um vestido velho do baú,
um vestido que não é para usar, só para olhar.
Só para ver como ele era.
Depois a gente dobra de novo e guarda

mas não se cogita em jogar fora ou dar.
Acho que saudade é isso.


As meninas


Selo oferecido pela Ana,
do blog Pelos Caminhos da Vida





10 de março de 2010

Meteorito

Thomas Baines




















Espero-te no inverno,
como sempre esperei todos
os anos. És fogo, sou gelo.

Sangro-me no teu sal que me
traz conforto. És fundo - não
fundo falso, nem venéreo: és
o piso onde se apóia a Terra,
e onde piso eu mesmo.

És fundo [repito], eu: superfície.
E no teu chão e no teu céu [arranhado
em sal] eu me admito: meteorito.

Toma-me e sua-me, como teu
passageiro.

Marcelo Novaes



7 de março de 2010

Dá licença que eu quero viver


Viver é um descuido prosseguido.

Sigo à risca.

Me descuido e vou...

Quebro a cara.

Quebro o coração.

Tropeço em mim.

Me atolo nos cinco sentidos.

Viver não é perigoso?

Então, com sua licença!



Guimarães Rosa



O velho Guima sabia das coisas.
Viver é isso. Um constante enfrentamento.
Não basta querer. É preciso coragem.
Imagem: Getty Images

1 de março de 2010

A sombra do vazio






 














No ponto onde o silêncio e a solidão
se cruzam com a noite e com o frio,
esperei como quem espera em vão,
tão nítido e preciso era o vazio.

25 de fevereiro de 2010

Só uma palavra me devora
















Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.

Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa
Uma voz na pedra


Imagem: Kim M. Koza/Corbis


22 de fevereiro de 2010

O mundo nos teus olhos






 









É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus

os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que

só nós é que o fazemos andar.


Nuno Judice

Imagem: Panoramic Images/Getty Images


Selo oferecido pela Juliana Lira
do blog Reticências

1 de fevereiro de 2010

Fotografando a ausência


 




















Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
...
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Cecília Meireles
 
Encomenda

Imagem: Christopher Brennan (óleo sobre tela)

28 de janeiro de 2010

O que tinha de ser se deu



Íamos tontos os dois assim ao léu
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje, lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu

Chico Buarque
Porque era ela, porque era eu/2006


Imagem: Hans Neleman/Corbis