3 de agosto de 2010

E era por ti!


E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

Cecília Meireles
Canção A Caminho do Céu




A saudade do amor é de outra natureza:
viva, pulsante, lançada sempre no futuro, sempre,
eu tinha saudade de ti quando te esperava.
Nunca no passado

Eugénia de Vasconcelos



Oferecido pela Gaby Shiffer
do blog Coisas de Mulher




23 de julho de 2010

Poder

















Tens o poder de trazer ao dia
a música do meu corpo.
a música dos nossos corpos
debruçados um sobre o outro
e sobre as horas,
a cidade,
o vento.

Tens nas tuas mãos fluidas
o poder que mal sabes,
de alterar as marés
que me atravessam.

Silvia Chueire

Imagem: Gil Lemos

16 de julho de 2010

Trapezista



Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirava do alto na certeza que alguém segurava-me as mãos não me deixando cair. Era lindo, mas eu morria de medo, tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo. Do que não ficava para sempre.

Antônio Bivar
extraído do disco Drama 3º Ato, de Maria Bethânia



Ainda que a palavra "medo" se repita tantas vezes no texto
de uma forma concreta, a minha intenção ao publicá-lo,
refere-se ao medo que está nas entrelinhas.
Medo do fim. Da perda. Da separação. Do "nunca mais".
Medo que não se vê e não se toca, mas se (pres)sente.
Medo do que não fica para sempre.



Imagem: Dewitt Jones/Corbis




Oferecido pela Insana
do blog Gritos e Sussurros





5 de julho de 2010

Sem norte

.
Ainda que eu pegasse
o mesmo velho trem,
ele não
me levaria
a ti, que não és mais.

José Paulo Paes / Revisitação

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há
.

Alejandra Pizarnik / Voz Mendiga
---

En mi mirada lo he perdido todo.
Es tan lejos pedir. Tan cerca saber que no hay.


Imagem: Geoff-Barrenger



Oferecido pelo Tarcísio
do blog On The Rocks



28 de junho de 2010

A essência da espera




Para sempre me ficou esse abraço.
Por via desse
cingir de corpo minha vida se mudou.
Depois desse
abraço trocou-se, no mundo,
o
fora pelo dentro.

Agora,
é dentro que tenho pele.
Agora, meus olhos se abrem apenas
para as
funduras da alma.

Nesse reverso, a poeira da rua
me suja é o coração.
Vou perdendo noção de mim,
vou desbrilhando.

E se eu
peço que ele regresse é para sua
mão peroleira me descobrir ainda
cintilosa por dentro.

Todo este tempo me
madreperolei,
em enfeitei de lembrança.

Mas o homem de minha paixão se foi
demorando tanto que receio me acontecer
como à ostra que vai engrossando tanto a casca
que morre dentro de sua própria prisão.


Mia Couto 

A Cantadeira
do livro Na Berma de Nenhuma Estrada


Agradeço a Ava, do blog
Minhas Vidas, pela idéia do título
.


Imagem: Thomas Northcut/GettyImages

24 de junho de 2010

União


 













Nos meus braços teu corpo estremeceu,
Desse tremor o meu foi percorrido.
Colados, curva a curva, onde começa o teu?
Onde se acaba o meu? Teu e meu têm sentido?
...
Brandamente, por vezes, te desvio
de mim, para melhor, depois, sentir
que és bem tu que eu agarro, acaricio,
bem tu que eu pude, em mim, fundir.

José Régio

Imagem: Trinette Reed

22 de junho de 2010

Alto-mar

Edward Hopper[Rooms by the Sea]



Esta noite tive um sonho, conheci um homem
que tinha o mar no lugar do coração e quando
sentia o seu corpo contra o meu,
ouvia lá fora a fúria do mar.

Al Berto


Senhor, enche o meu quarto
de alto mar.

Filipa Leal
O Princípio da Oração
do livro O Problema de Ser Norte







30 de maio de 2010

A partitura de um toque


 


se eu tocasse
um instrumento
saxofone
um movimento de jazz
talvez
acompanharia
coadjuvante
as variações
dos meus olhos
descendo e subindo
cabelos ombros e fendas
por isto toquei suas costas
que ouviram
da minha mão
aquele solo
que me descompôs
não sei de partituras
muito menos de cifras
mas tenho nos meus dedos
cinco notas inacabadas
um dia vou soprá-las
no seu corpo
será
a um só tempo
minha iniciação e sintonia.

Al-Chaer
Decote


Imagem: Vadim Stein


17 de maio de 2010

Única paisagem












 
 









Agora há uma dor que pousa nas palavras.
Não as digas – um nome basta para
dividir o coração. Se me esqueceste entre
um livro e outro, finge que não sei; despede-te
de mim como uma lâmpada antiga, deixa que
a tua sombra seja a minha única paisagem.

Maria do Rosário Pedreira
Nenhum Nome Depois.


Imagem: Lieutenant Tibs

12 de maio de 2010

Ânsia

Clark Little



Não me deixem tranqüilo

não me guardem sossego

eu quero a ânsia da onda

o eterno rebentar da espuma.


Mia Couto

Raiz de Orvalho e Outros Poemas



5 de maio de 2010

Os olhos dela(s)


P'ra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...



José Régio
Quando eu nasci


À minha mãe, ( in memoriam )
pelos anjos que me traziam estrelinhas nas noites de São João

pelos Papais Noéis que "adivinhavam" todos os meus desejos
pelas vigilias nas noites de febre
pelos erros e acertos, pelos "sins" e pelos "nãos"
pela admirável coragem diante da vida e da morte
pelo que sou.


À minha irmã, Alana,
pela bravura em continuar tecendo a vida.




À todas as MÃES
que por estes rios navegarem.


Imagem: Elis Frigini

3 de maio de 2010

Os rios de mim












 









Corre um rio de minha boca
Corre um rio de minhas mãos
Dos meus olhos corre um rio.

Na verdade sofro de excessos,
Que me dão certo vocabulário.
Como derramar. Escorrer. Atravessar.
Tenho a impressão de que
tudo vaza em sobras.

Tenho dificuldade em caber.

Viviane Mosé
Rios - do livro Desato


Imagem: Joseph Hancock

28 de abril de 2010

Mãos de quem te espera














 


Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

As mãos e os frutos

Imagem: Angélica

9 de abril de 2010

Pedaços


Estou estilhaçada
silêncios saem da boca
mansos
estava desenhando

palavras
perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços que sou
quase infinita


Vera Lúcia Oliveira

Geografie d’Ombra. Veneza: Fonèma, 1989




Os sentimentos, em especial aqueles que doem, são como um jogo de
quebra-cabeça.
Há peças que, por alguma razão, sofrem algum tipo de dano em suas formas, porém voltam a se encaixar no jogo. Há outras, porém, que sofrem uma avaria tão significativa que, mesmo após inúmeras tentativas a fim de moldá-las e/ou restaurá-las, não mais conseguem se ajustar ao espaço que lhes fora destinado. Sempre haverá uma fresta.
O sentimento de perda se equipara a uma dessas peças avariadas, ou seja, continua fazendo parte do jogo, porém a evidência pelos danos sofridos ficará marcada, para sempre, pelos espaços vazios.




Oferecido pelo Ely

do blog Bobeiras em Geral






24 de março de 2010

A vida e as suas f(r)ases

Adonis Werther



- Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam idéias próprias.

- Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com idéias.

- Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem idéias.

- Aos 40 achamos que as idéias dos outros são todas nossas.

- Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter idéias.

- Aos 60 ainda temos idéias mas esquecemos de que estávamos a pensar.

- Aos 70 só pensar já nos faz dormir.

- Aos 80 só pensamos quando dormimos.


Mia Couto
Venenos de Deus, Remédios do Diabo
(fala do personagem Bartolomeu Sozinho)



Até onde me cabe opinar, as afirmações do personagem se encaixaram
tal e qual algumas fases da minha vida. Para opinar sobre as restantes, terei 
ainda que galgar mais alguns degraus, ou melhor dizendo, descer, rss...
Aliás, esse livro foi danado de bom de ler. Salve, Mia Couto!