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20 de março de 2014

Braile

Scott Murdoch


Leio o amor no livro
da tua pele;
demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.


Braile


22 de maio de 2013

Cais

Kevin Muggleton/Corbis




Disse-te adeus e morri
E o cais vazio de ti
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
Roubaram dos meus sentidos
A gaivota que tu és.

Disse-te adeus e morri

De volta ao convés, reabro
o diário de bordo. E o barco continua parado
no oceano sem porto.

Geometria Variável




25 de julho de 2012

Alegoria floral


Lylia-Corneli


Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada. Então, vendo-a nascer com o dia,
desenharei nuvens com a cor dos seus lábios, e
empurrá-las-ei para o mar com o vento brando
da sua respiração.

Alegoria Floral



11 de outubro de 2010

O amor


Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti.


Nuno Júdice



Imagem: Burazin/Getty Imagens




22 de fevereiro de 2010

O mundo nos teus olhos






 









É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus

os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que

só nós é que o fazemos andar.


Nuno Judice

Imagem: Panoramic Images/Getty Images


Selo oferecido pela Juliana Lira
do blog Reticências

20 de abril de 2009

Lembrança
















Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas,
e trouxeste a
manhã da minha noite.
...
ensinaste-me
a sermos dois;
e a ser contigo aquilo que sou,
até
sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide.


Nuno Júdice
Pedro, lembrando Inês

Imagem: Gosia Barta

28 de novembro de 2008

Ausência













Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.

Nuno Júdice
Pedro Lembrando Inês



A ausência foi a contragosto. A volta, uma precisão. Estar aqui com vocês, nas palavras de cada dia, acende-me largos sorrisos. Muito obrigada a todos os queridos amigos que, nos instantes de uma angústia tão minha, deram-me as mãos em palavras de afeto. O meu mais terno beijo a cada um de vocês.


Imagem: Susanne Borges/A.B./zefa/Corbis