10 de fevereiro de 2009

Em legítima defesa




 










Sei hoje que ninguém antes de ti
Morreu profundamente para mim.
...
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
Pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
Onde antes te encontrava e te posso encontrar
E ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e
Vives sempre mais.

Ruy Belo
Volume II


Imagem: Markus Arns

5 de fevereiro de 2009

Um ritmo perdido...











 









Se uma pausa não é fim
e silêncio não é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido, será acabado?

Ana Hatherly




1 de fevereiro de 2009

Pela luz dos olhos teus


Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...

Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...

Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.


Não me arrependo do que fui outrora

Porque ainda o sou.




Alberto Caeiro
O Pastor Amoroso


Imagem: Inês Queiroz / Dois Rios
(Patagônia Argentina)

Queridos amigos,
Ando sem tempo para retribuir as carinhosas visitas de vocês.
Tão logo me desvencilhe dos afazeres que me têm arrebatado
esse prazer, me farei novamente presente.




24 de janeiro de 2009

Foi para ti

Les Graves



Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida.

Mia Couto
Raiz de Orvalho e Outros Poemas





19 de janeiro de 2009

A completude de um adeus




Quando partiu, levava as mãos no bolso,
a cabeça erguida.
Não olhava para trás, porque olhar
para trás era uma maneira
de ficar num pedaço qualquer para
partir incompleto, ficado em meio para trás.

Não olhava, pois, e pois não ficava.

Completo, partiu.


Caio Fernano Abreu
 
O Rato

Google Imagens


15 de janeiro de 2009

Fazes-me falta


  

És agora uma fotografia ao lado da minha insónia. Uma memória que me fala sobretudo, como todas as memórias, daquilo que não existiu.

Nesta fotografia te esqueço.

Meticulosamente, de cada vez que me esforço por reter-te e começo a inventar-te.

Tudo em ti tem asas, agora - o teu riso, os teus passos. Até nas poucas frases de que de ti recordo há um restolhar de penas.

E deslizo para esta solidão demasiada humana de não poder voltar a ser sozinha, como era quando tu existias, nesta mesma cidade, e eu já nem sequer
pensava em ti.


Inês Pedrosa

Fazes-me Falta


Imagem: Jennifer Kennard/Corbis



9 de janeiro de 2009

Inscrição para uma lareira


Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?

Mário Quintana


Imagem: Inês Queiroz / Dois Rios

6 de janeiro de 2009

Encantamento


 











 


há uma palavra mágica que se diz. 
essa palavra é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.

essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
não se diz uma palavra. brilho,........ .., montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.

há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra,
pode começar o amor.
Fazes-me falta.



Imagem: Yasuhide Fumoto

27 de dezembro de 2008

Condição perene




 
















nas cheias o rio comanda o espetáculo
e as margens são apenas
degraus para o leito mais fundo

nas secas
o rio é a margem

Lau Siqueira

Imagem: Gustavo Orensztajn

22 de dezembro de 2008

Falta



São de nada
tempestades

ante a falta
que me fazes

David Mourão-Ferreira
Os Ramos Os Remos




Imagem: Micha Pawlitzki-zefa-Corbis


16 de dezembro de 2008

Invento um cais




















Eu vou guardar cada lugar teu
ancorado em cada lugar meu
e hoje apenas isso me faz acreditar
que eu vou chegar contigo
onde só chega quem não tem
medo de naufragar...


Mafalda Veiga
Cada lugar teu ao meu amor


Imagem: Bob Tiny



13 de dezembro de 2008

A qualquer preço



















 Amor custa bem caro.
Mesmo assim depenamos bolsos
e bolsas de moedas raras.
Por ele pagamos, em prestações
nem sempre suaves, quanto
de entrada supúnhamos
de todo não poder:
o alto preço dos sustos,
a conta escorchante
das noites em claro,
os juros extorsivos
do medo de perdê-lo,
a tristeza do saldo zero.
Queixamo-nos de carestia
se de amor-próprio ainda
nos sobra algum trocado,
mas que fazer quando só
amor é o lucro que buscamos?

Astrid Cabral
Carestia

Imagem: Marc Schlossman

10 de dezembro de 2008

Lobo em pele de cordeiro




Os que andam com segundas intenções
Não conseguem enganar ninguém.

Está na cara...
O perigo mesmo - porque é invisível -
está nos que têm terceiras intenções.
 
 
Mario Quintana
Intenções
/ A vaca e o hipogrifo



dedico a você que anda rondando o meu
pasto com terceiras intenções. 

Google Imagens





8 de dezembro de 2008

Felicidade


 













A felicidade sentava-se
todos os dias ao peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo
pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério
no seu próprio nome.

Jorge de Sena

Imagem: Inês Queiroz / Dois Rios
(Hatillo/Caracas-Ve)

4 de dezembro de 2008

Sabedoria

Caprice Clark/White Chair



Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espectáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste.


Livro do Desassossego