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7 de fevereiro de 2012

The long and winding road


Penso: quando você não tem amor,
você ainda tem as estradas.
Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar.

Florbela Espanca
Não Ser


   Título: Lennon & McCartney


O link dos comentários ficará desativado por um certo período. 



6 de dezembro de 2011

A tua mão



Quando a tua mão pousou
sobre a minha mão
nesse rastro de ave
nesse peso de folha
eternizou-se o instante.

Maria de Lourdes Hortas
A tua mão

Não importa quanto vai durar
- é infinito agora.


Caio Fernando Abreu






20 de agosto de 2011

O nó era fraco




Eu me arrebentei, assim, porque o nó era fraco. Frouxo. Mal dado. Eu afundei, em segundos, porque no meu casco havia um buraco milimétrico por onde o mar entrou, aos poucos. Inteiro. Eu caí com o primeiro vento porque não havia tijolos. Eu era construção mal feita. Erguida na pressa. Madeira com pregos mal batidos. Fachada. Eu derreti ao sol porque era de plástico. Sumi no sopro porque era pó. Eu me quebrei na primeira queda porque, por dentro, não havia mais nada. eu me sentia forte, sem saber que já era oco.


 
Eduardo Baszczyn

Coisas da Gaveta
 
Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e
ninguém suspeitar dos traumas, das quedas,
dos medos, dos choros.

 

10 de agosto de 2009

Para atravessar agosto



Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados. Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto.


Imagem: Getty Images

13 de abril de 2009

Vou ali ser feliz e já volto

Ata Haluk Enacar


ontem chorei. por tudo que fomos. por tudo o que não conseguimos ser. por tudo que se perdeu. por termos nos perdido. pelo que queríamos que fosse e não foi. pela renúncia. por valores não dados. por erros cometidos. acertos não comemorados. palavras dissipadas. versos brancos. chorei pela guerra cotidiana. pelas tentativas de sobrevivência. pelos apelos de paz não atendidos. pelo amor derramado. pelo amor ofendido e aprisionado. pelo amor perdido. pelo amor. pelo respeito empoeirado em cima da estante. pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda-roupa. pelos sonhos desafinados. estremecidos. adiados. pela culpa. toda a culpa. minha. sua. nossa culpa. por tudo que foi. e foi. e voou. e não volta mais pois que hoje é já outro dia. chorei. eu chorei. apronto agora os meus pés na estrada. ponho-me a caminhar sob sol e vento. eles secam as lágrimas. vou ali ser feliz e já volto.


 Caio Fernando Abreu




19 de janeiro de 2009

A completude de um adeus




Quando partiu, levava as mãos no bolso,
a cabeça erguida.
Não olhava para trás, porque olhar
para trás era uma maneira
de ficar num pedaço qualquer para
partir incompleto, ficado em meio para trás.

Não olhava, pois, e pois não ficava.

Completo, partiu.


Caio Fernano Abreu
 
O Rato

Google Imagens


9 de agosto de 2008

Transbordamento




David Jay Zimmerman/Corbis


"...você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente..."


Caio Fernando Abreu
Para Uma Avenca Partindo / O Ovo Apunhalado
Imagem: David Jay Zimmerman/Corbis