28 de abril de 2011

Entrelinhas




O bolso cheio de pedras, mas os rios todos secos.
Há dias em que até afundar é impossível.

Eduardo Baszczyn
Coisas da Gaveta


Imagem: Moises Saman/The New York Times/2009
Rio Eufrates/Iraque


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21 de abril de 2011

Vida

Chris Hepburn/Getty Images

Vida! Quero viver todas as tuas horas,
As que prendi na mão e as que nunca alcancei.
Ser um pouco de ti no espelho das paisagens
Para, quando morrer, levar dentro dos olhos
A beleza imortal de tudo quanto amei.


Olegário Mariano
do livro O Enamorado da Vida/1937


Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza.
Amo-a tanto, que
não tenho nenhuma
imaginação para o que não for vida.


Albert Camus




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18 de abril de 2011

Mais que as palavras




 








Eu te amo pelas tuas faltas,
Pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes
Pelas tuas loucuras todas, minha vida
Eu amo as tuas mãos
Mesmo que por causa delas
Eu não saiba o que fazer das minhas
...
Eu te amo pela tua essência
Até pelo que podias ter sido
Se a maré das circunstâncias
Não tivesse te banhado nas águas do equívoco
...
Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
E pelos teus sonhos inúteis
Amo teu sistema de vida e morte
Eu te amo pelo que se repete
E que nunca é igual
...
Eu te amo de alma para alma
E mais que as palavras

Ainda que seja através delas
Que eu me defenda quando digo que te amo
Mais que o silêncio dos momentos
Difíceis quando o próprio amor vacila.

Quando o Amor Vacila

Extraído do CD Maricotinha ao Vivo, de Maria Bethânia


Para H.
Ressonância da minha própria alma.


Imagem: Tom Merton/Getty Images

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13 de abril de 2011

Um espaço onde não vive o adeus




 








A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.

Hilda Hilst
Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão



Depois de te viver não há poente
nem o enfim de um fim.

Mia Couto
Já Não Há Domingos


Imagem retirada da Net
(desconheço a autoria)


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10 de abril de 2011

Queres saber quem sou?

Jean-Bernard Augier

Eu sou
a que te olha e espia para te recolher e depois guardar
num lugar que é só meu.

...

O resto não precisas saber.
Nem convém. Só te ia distrair, podes crer.Eu sou a que mergulha as mãos na tua vida
para sentir
a minha a voltar.

Pedro Paixão

Muito, Meu Amor



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1 de abril de 2011

Abismos


Criança, eu sabia suspender o tempo, 
soterrar abismos e nomear as estrelas. 
Cresci, perdi pontes, esqueci sortilégios.

Mia Couto
Idade Cidades Divindades


Não se sai do abismo,
aprende-se a sua linguagem.

Vasco Gato
Omertá
Imagem: Alexandre

25 de março de 2011

Tuas mãos

Nas tuas mãos apagaram-se os
relâmpagos
da minha'lma. A
claridade não mais
precede aos
ruídos da tempestade.
Aninho-me
sob o sol do teu toque.

Para H.



Imagem: George Disario/Corbis

18 de março de 2011

Incandescência




Andava a procurar-me -Pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!
E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!


Florbela Espanca
Eu
A cinza voa, mas o fogo é que tem asa.

Mia Couto
 
O Vôo do Flamingo

Imagem: Rozu


7 de fevereiro de 2011

Tempos de seca



Os rios secaram e o meu barco padece numa
margem anoitecida, à espera de uma razão
que o mova.

Há-de haver!

Esperarei em silêncio.


Imagem: EIGHTFISH/Getty Images

1 de fevereiro de 2011

Canção de outono














Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
...
Sentei-me na cama e repeti devagar o teu nome,
o nome dos meus sonhos, mas as sílabas caíam
no fim das palavras, a dor esgota as forças,
são frios os batentes nas portas da manhã.

Maria do Rosário Pedreira


Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles
Canção de Outono


Oferecido pela Cristina Lira
do blog Silêncio





Imagem: Andrea Seifert/Corbis

15 de janeiro de 2011

Como um rio

Dedo de Deus/Teresópolis-RJ.

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
...
Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
...
Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Thiago de Mello
Como um rio


Uma feroz tempestade varreu vidas, casas, pontes, ruas
e estradas da serra fluminense. Eis a natureza cobrando, 
mais uma vez, um alto pedágio pelo descaso das autoridades
diante de uma catástrofe amplamente anunciada.

A esperança é a única
moeda que restou nos  bolsos dos que,
mesmo com o coração em   frangalhos, precisam recomeçar.

Na tentativa de abrandarmos a dor dos que  perderam 

seus  entes queridos e suas casas, a solidariedade é, sem
dúvida, o nosso melhor afago.

Vamos ajudar!
Projeto Doações
Imagem: Inês Queiroz / Dois Rios


11 de janeiro de 2011

Coisas que deixaste

Marta Laura Gliñska



Lê, estes são os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar.


Maria do Rosário Pedreira
Nenhum Nome Depois


E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

Florbela Espanca
Lágrima Oculta


8 de janeiro de 2011

A cada milágrimas sai um milagre


.
Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre.

Alice Ruiz e Itamar Assumpção
Milágrimas

Teorias à parte, creio que saiamos mais fortalecidos
depois que emergimos de um
rio de lágrimas. Chorar
quando tudo deu
errado, é a tomada de consciência
de que
mudar seja uma margem alcançavel para
acolher quem ainda tem muito a nadar..

28 de dezembro de 2010

Espera

Eleonorah



A noite chega de comboio.
Sou um astro sem brilho neste cais
onde espero há vinte e quatro horas
que não voltes mais.

Dois Poemas
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade
Espera


13 de dezembro de 2010

Revelação



Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar

Encontrará outro lá dentro.

Pois que o mate.

Elisa Lucinda
Safena

Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

Alejandra Pizarnik
Festa



Oferecido pela Verônica
do blog
Sensibilidade



Imagem: Terry Vine