14 de abril de 2013

Sem milagres

Katia Chausheva



Não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor, que te procuram.


Herberto Helder
Poesia Toda
Tirem-me deste filme, digam-me como é viver.

A Nova Poesia Portuguesa

11 de abril de 2013

Porta

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Abro-me todo: sou porta
que só contigo transpus.


Ruy Belo 

Por do Sol na Boa Nova
morre comigo esta noite
se à minha porta ainda te quedas.

Isabel Coelho
 



10 de abril de 2013

Abismos

A manhe'ser

















E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos
nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas,
não foi marcado. 
Não será exposto às fraquezas,
ao desalento,
ao amor,
ao poema.

O Livro das Ignorãças


9 de abril de 2013

Trapezista

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Não o trapezista
mas o circo inteiro
se desequilibrava
Como um rio,
no frio, se arrepia.

Mia Couto 
Bloco Poético de Notas




8 de abril de 2013

Eduardo Galeano

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Felicidade


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Minha avó dizia: para ser feliz, a gente não precisa sair do lugar, a gente tem que ser o lugar. Ela me advertia com seu olhar de madrepérola. Eu não entendia. Ser feliz para mim era sair de casa, depois da cidade, depois do estado e, se possível, do país. Acreditava que quanto mais longe do início mais perto do final. Julgava a independência um modo de fugir. Descobri que estava errado. Quanto mais longe do final mais perto do começo. A felicidade é uma impressão, uma intensidade, que não há como descrever para os amigos.  O que desejamos não se diz, se arde. 

5 de abril de 2013

Solidão


Olhares/António Manuel Pinto da Silva
 

Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta feia ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e quando vejo a alegria está instalada em mim.

Lygia Fagundes Telles
As meninas



4 de abril de 2013

Inverno

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Solidão no inverno
O velho aquece as mãos
com as próprias mãos.

Há estações




28 de março de 2013

Colheita

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Colho metáforas nos teus olhos
Deixo-as cair no solo
Dos nossos sentimentos
Para que nada se perca
Para que tudo se transforme
Numa interminável colheita.

Inocêncio de Melo Filho
Interminável
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

Uma Voz Na Pedra


22 de março de 2013

Deixa a mão errar

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Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.
Deixa a mão errar...







9 de março de 2013

Silvestre e o idioma

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Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.

Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.

Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.

É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.

Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebatizara, vezes sem fim.

Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.


Idades Cidades Divindades



7 de março de 2013

Entre o vento e o olvido


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Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.



.Uma voz na pedra



4 de março de 2013

O cerne da semente

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E reverdeço
No rosa de umas tangerinas
E nos azuis de todos os começos.


Hilda Hilst
Amavisse












3 de março de 2013

O mar

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Diego não conhecia o mar. O pai levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Me ajuda a olhar!


O Livro dos Abraços



1 de março de 2013

Preguiça

Rainer Muller
















Este

lento


talento


de vazarmos tristeza.



José Carlos Ary dos Santos
A Preguiça / As Sete Virtudes Filosofais