25 de fevereiro de 2010

Só uma palavra me devora
















Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.

Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa
Uma voz na pedra


Imagem: Kim M. Koza/Corbis


22 de fevereiro de 2010

O mundo nos teus olhos






 









É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus

os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que

só nós é que o fazemos andar.


Nuno Judice

Imagem: Panoramic Images/Getty Images


Selo oferecido pela Juliana Lira
do blog Reticências

1 de fevereiro de 2010

Fotografando a ausência


 




















Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
...
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Cecília Meireles
 
Encomenda

Imagem: Christopher Brennan (óleo sobre tela)

28 de janeiro de 2010

O que tinha de ser se deu



Íamos tontos os dois assim ao léu
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje, lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu

Chico Buarque
Porque era ela, porque era eu/2006


Imagem: Hans Neleman/Corbis

25 de janeiro de 2010

Rios de lembranças



 










Hoje estou melancólica e suspirosa...
choveu muito, e a água
invadiu este porão de lembranças,
bóiam na enxurrada a caminho do rio.
Deixo que naveguem, pois não as perderei.
O rio é dentro de mim.



Filandras

21 de janeiro de 2010

Toque







  







Uma vontade enorme de te tocar,

fechar-te de novo na palma da

minha mão para seres real,

integrar a tua realidade na certeza

da minha carne.


Vergílio Ferreira
Para Sempre

Imagem: Uli B.

17 de janeiro de 2010

Casa vazia



 




 







Essa casa, onde atrás de cada porta fechada
me descobrias parques, jardins, nascentes...
um imenso espaço risonho aberto à floração da luz,
essa casa onde eu era contigo um curso de água
ou um desejo de vôo,
essa casa está vazia.
 
Eugénia de Vasconcelos
Mátria Minha

Imagem: a manh'ser



Selos oferecidos pela Martinha

do blog Mar de Desabafos

14 de janeiro de 2010

Voar não dói














 





Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais que eu fiz na vida?

Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.

Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.

Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde.

Voar, isso não dói.



Paulo Leminski

Asas e Azares


9 de janeiro de 2010

Nunca mais


 














Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Imagem: José Eduardo T. Leite

4 de janeiro de 2010

A luz dos encantos teus





 










foi a teu lado que olhei por várias
vezes o céu enorme e estrelado e me senti acompanhado.

foi a teu lado que parti vidros e
gritei e depois adormeci sem saber como, encantado.

foi a teu lado, ao teu lado, em teu lado

que cresci e aprendi também a ser assim,
- pirilampo -
aquele que pelo escuro se vai iluminando.

Pedro Paixão

A Noiva Judia

Imagem: Narcis Virgiliu

29 de dezembro de 2009

Canção de fim de ano


Uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor: aliança.


Carlos Drummond de Andrade
Poemas de Dezembro



Aos queridos amigos que sempre deixam pairando no ar dos meus rios a suave
fragância do afeto, desejo que
, em tempo algum, deixem de escutar a
alentadora canção da esperança. Muito obrigada por suas
sempre leais e indispensáveis presenças.

Tão doce, tão cedo, tão já, tudo de novo vira começo.
Paulo Leminski

Feliz 2010!



Imagem: Hiroshi Watanabe/Getty Images



21 de dezembro de 2009

Poema de Natal

















Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Po
r isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço

Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia

Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinícius de Moraes



Aos que partiram mas ficaram. Aos presentes, ainda que ausentes.
Aos ausentes sempre muito presentes, e a todos os amigos que navegaram
pelo
s meus rios
ao longo desse ano e que deixaram, num eterno flutuar,

as mais suaves e delicadas expressões de carinho..



Imagem: Zoe/Corbis


18 de dezembro de 2009

Para que sejamos necessários



















Transfere de ti para mim essa dor
de cabeça, esse desejo, essa violência.
Que careça em ti o meu excesso
e que me falte o que tu tens de sobra.


Que em mim perdure o que te morre cedo
e que te permaneça o que tenho perdido.
Que cresça, se desenvolva um teu sentido
que em mim desapareça.


Dá-me o que de possuir tu não te importas
e eu multiplico o que te falta e em mim existe

para que nosso encaixe forme uma unidade -indivisível-
que não se possa subtrair uma metade.


Bruna Lombardi
No Ritmo Dessa Festa
 



Selo oferecido pelo Leonel do blog
Passando a Limpo o Passado



14 de dezembro de 2009

Tecidos



Como as pessoas, cada tecido tem as suas próprias vantagens e limitações. Alguns são finos e lindos, mas frágeis que se rasgam ao mínimo picote. Outros têm a trama tão cerrada que nem dá para ver as fibras. Há ainda os que são grossos, encorpados, chegando até a arranhar. Impossível mudar o caráter de um tecido. Ele pode ser cortado, rasgado, cozido, para se transformar em vestidos, calças, ou toalhas de mesa, mas seja qual for o feitio que assuma, o pano continuará sempre o mesmo. A sua verdadeira natureza não se altera, qualquer boa costureira sabe disso.

Frances de Pontes Peebles
A Costureira e o Cangaceiro

Tal qual uma boa costureira, a vida se encarrega de reconhecer e revelar
a natureza do tecido
que nos reveste, seja qual for o feitio que assumamos.

Imagem: Tooga/Getty Images

11 de dezembro de 2009

Vida
















Pois aqui está a minha vida.
Pronta para ser usada.
Vida que não guarda
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre a serviço
da vida.
Para servir ao que vale
a pena e o preço do amor

Ainda que o gesto me doa,
não encolho a mão: avanço
levando um ramo de sol.
Mesmo enrolada de pó,
dentro da noite mais fria,
a vida que vai comigo
é fogo:
está sempre acesa.

Thiago de Mello  
A vida verdadeira

Imagem: Paulo Medeiros/Olhares

Selo oferecido pelo Ely
do blog
Bobeiras em Ger
al