23 de julho de 2013

Partida

Google


Cumprias distâncias em mim.
Madrugando não alcançaria.

Venho da tua lonjura, os braços 
eram remos no barco e aço de âncora.
Acostumado à extensão das raízes,
não sobrevivo no vaso dos pés.

Passei a vida aprendendo a respeitar teu espaço.
Como povoá-lo após a tua partida?

Caixa de Sapatos
Só porque a Adri Aleixo pediu.


14 de julho de 2013

Azul



Chis Deeney


Se o azul é um sonho,
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

Obra Poética Completa/Tradução de William Agel de Mello

 

1 de julho de 2013

Desígnios

Gettyi Images/Sami Sarkis


Alguém pode me dizer
se estava prevista na palma da minha mão
esta paixão inesperada
se já estava escrita e demarcada
na linha da minha vida
se fazia já parte da estrada
e tinha que ser vivida

ou foi um desgoverno repentino
que surpreendeu os deuses, todos
os que desenham nosso destino
ou foi um desatino, uma loucura
uma imprevisível subversão
que só a partir de agora eu trago marcada
na palma da minha mão.

18 de junho de 2013

A pele é o espelho da memória



Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move. 


Luis Miguel Nava
Poesia Completa 1979-1994

Com o tempo, as mãos, as tuas, 
cairão também no esquecimento.
 E delas restará apenas uma sensação 
de ardor sobre a minha pele.

Lunário



12 de junho de 2013

Eterna companheira

daqui
  
Quando estou sozinho no bar, não deixo
que retirem as cadeiras vazias.
A esperança me faz companhia.






22 de maio de 2013

Cais

Kevin Muggleton/Corbis




Disse-te adeus e morri
E o cais vazio de ti
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
Roubaram dos meus sentidos
A gaivota que tu és.

Disse-te adeus e morri

De volta ao convés, reabro
o diário de bordo. E o barco continua parado
no oceano sem porto.

Geometria Variável




18 de maio de 2013

Escrevo-me nas palavras

Weheartit



Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridículas: amor, esperança, estrelas, e nas palavras mais belas: claridade, pureza, céu. Transformo-me todo em palavras.

José Luis Peixoto
Uma Casa na Escuridão




15 de maio de 2013

Paisagem diluída



Foi tão comprido o túnel da noite
e o trem do dia
Entrou com atraso na estação.
Adormeci num banco ao relento
para esperar-te.
Um molho de violetas exaustas
Expirou entre os meus dedos.


Maria de Lourdes Hortas
Paisagem diluída


Nunca houve palavras para gritar a tua ausência.
Apenas o coração pulsando a solidão antes de ti 
quando o teu rosto doía no meu rosto e eu
descobri as minhas mãos sem as tuas.


Joaquim Pessoa
De Onde Chegam Estas Palavras?




29 de abril de 2013

Viagem

Paulo de Sousa


Guardo, na minha pele, esta viagem. 
Para sentir o lento movimento dos dias.

Uma coisa é habitar a pele, 
outra, ter a noite por fragata.

Viagem



22 de abril de 2013

Por ti

Pascal Renaux


Por ti diria tudo ou quase nada
Se não fosse esta fome esta saudade
De ser eterna
Madrugada
Ou ser precária
Eternidade

Por ti
Por ti desço até ao fundo da noite,
desenraízo o tempo, culmino numa estrela,
vivo na imaginação de todas as aves
e acendo o futuro, num gesto antecipado.

Albano Martins
O Futuro em Anos-Luz



17 de abril de 2013

Letras de chuva




















Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Manuel Alegre
Canção Tão Simples




16 de abril de 2013

Espera

Google


Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti.
até que todas as coisas sejam mudas.

Eugénio de Andrade
Espera

Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.

Daniel Faria
Explicação das Árvores e de Outros Animais




15 de abril de 2013

Sonhos tresmalhados

Daniel Phill


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com  a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Os Amantes Sem Dinheiro
Para o meu amigo R., que ouve  Eugénio de Andrade enquanto sonha.



14 de abril de 2013

Sem milagres

Katia Chausheva



Não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor, que te procuram.


Herberto Helder
Poesia Toda
Tirem-me deste filme, digam-me como é viver.

A Nova Poesia Portuguesa

11 de abril de 2013

Porta

Weheartit



Abro-me todo: sou porta
que só contigo transpus.


Ruy Belo 

Por do Sol na Boa Nova
morre comigo esta noite
se à minha porta ainda te quedas.

Isabel Coelho