17 de novembro de 2009

Marvada carne


Um regalo que me chegou envolto em papéis de ternura,
em 20 de junho de 2008 ( Não deixem de ve-lo. É belo.)


E se eu fosse Deus, eu me daria
Agora, já, e sem mais demora
A resposta que me acalmaria.

José Eduardo T. Leite
Marvada Carne (fragmentos)
Um lamento que ora devolvo.

16 de outubro de 2009

Tempo de travessia



Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares.

É o tempo da travessia: e, se não ousarmos faze-la, teremos ficado, para sempre,  à margem de nós mesmos.

Fernando Teixeira de Andrade
O Medo: o maior gigante da alma


Imagem: Andre Gallan/Getty Images

9 de outubro de 2009

Falta sempre um pedaço



Um belo dia, acordei, sentei-me na cama e sorri. Não sentia já dor. E, subitamente, percebi que não existe a pessoa certa. Nem na terra, nem no céu. Nem seja lá onde for, podes ter a certeza. Existem somente pessoas, e, em todas elas, um pedacinho da pessoa certa, mas em nenhuma se concentra tudo o que se aguarda e dela esperamos. Nenhuma pessoa reúne em si tudo isso, nem existe a certa, a única, a maravilhosa, essa figura singular que nos traz felicidade. Existem somente pessoas, e, em todas elas, há escórias e um raio de luz.

Sándor Márai 
A mulher certa 

Imagem: Yasuhide Fumoto





2 de outubro de 2009

Um Rio dentro dos meus rios








Cidade maravilhosa. És minha.
O poente na espinha das tuas montanhas
Quase arromba a retina de quem vê.


Chico Buarque
Carioca/1998

Pelo Rio de 1502
Para o Rio de 2016
Por todos os Rios.
Em todos os Janeiros.



2 de setembro de 2009

Hora de cruzar os remos



Deixar vazar pelos poemas afora, os estilhaços dos meus sentimentos, foi a razão essencial do surgimento do Dois Rios.

Foi aqui, regando as palavras, ainda que dos outros, que fui desenhando a minha tristeza. Recuperei-me. Tornei-me outra sem que com isso precisasse romper com a que eu era, e daí em diante o blog foi mudando a direção dos ventos, dando voz ao amor, ao desejo e às belezas do sentir.

Hoje não há motivos, nem bons, nem ruins, que justifiquem a sua continuidade. O blog cumpriu a função de suavizar a tristeza e embelezar o amor com seus poemas, além, é claro, de deixar um precioso legado: Os amigos. Uns mais próximos, outros nem tanto, mas todos de suma importância para mim.

Talvez numa outra etapa, que espero não seja pelas mesmas vias, ele volte a pulsar. Enquanto isso levo na memória as tantas ternuras aqui trocadas, as sempre carinhosas palavras a mim dedicadas, e a plena certeza de que valeram todas as penas.

Muito obrigada a todos.

Beijos,
Inês

Imagem: Maremagnum/Getty Images



29 de agosto de 2009

O que sou




 











No seu corpo aprendi a saborear o desejo infinito,
o desejo como experiência da eternidade.
Para essa experiência não tenho palavras.
Nem sequer silêncio. Dessa experiência,
sobrou-me o que sou.


Inês Pedrosa
A Eternidade e o Desejo (excerto)



15 de agosto de 2009

Se não chover vira sertão




















É preciso chorar.
As lágrimas são a chuva da gente,
nuvens do nosso tempo íntimo
precisam desabar.

É preciso chorar,
Lágrimas são os rios do ser,
as cachoeiras da gente,
mudam nosso tempo simples,
atualizam o nosso mar.
É preciso chorar,
é preciso à natureza copiar,
é preciso aliviar e molhar
a seca do coração.

Se não chover vira sertão,
morre homem, morre gado,
morre plantação.

Elisa Lucinda
Mar Adentro /
Fúria da Beleza

Imagem: Rui Molefa

12 de agosto de 2009

Pedaços de mim


Fui sabendo de mim por aquilo que perdia.


Mia Couto
Raiz de Orvalho e Outros Poemas





Para Daniel e Papai, com amor.
Pelo dia de hoje e por tod
os os amanhãs.


Imagem: Fatima Condeço

10 de agosto de 2009

Para atravessar agosto



Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados. Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto.


Imagem: Getty Images

6 de agosto de 2009

Sobre o amor



O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não suporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. (excerto)

Ferreira Gullar

Imagem: Tom Marks/Corbis

2 de agosto de 2009

O outro lado da palavra



















Preciso do teu silêncio
cúmplice sobre minhas falhas.

Não fale.
Um sopro, a menor vogal pode me desamparar.
E se eu abrir a boca minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo, pode construir. É um modo
denso/tenso - de coexistir.
Calar, às vezes, é fina forma de amar.

Affonso Romano de Sant'Anna
Silêncio Amoroso

Google Imagens
(desconheço a autoria da imagem)


30 de julho de 2009

A tenda dos milagres


Os amigos que navegam pelo Dois Rios já devem ter percebido um quase nada de escritos de minha autoria. Um dia venço o bloqueio e, quem sabe, abro as minhas comportas e deixo as palavras fluirem. Por enquanto deixo aqui uns versos que fiz no auge de uma intensa angústia pela espera do resultado de um exame que, graças Deus, saiu tudo bem.


Pede como puderes e souberes
Pede com o olhar ou com
um mero pensar.

Pede com as palavras silenciadas
com os acordes das músicas entoadas
ou nos teus ditos de poetizar.

Pede do jeito que quiseres
com os dedos entrelaçados
ou os joelhos dobrados
sob um ipê desflorado.

Pede no tragar de uma cerveja
a cada baforar de uma incerteza
ou nos aromas de uma tarde de vinho
servido na taça de uma chuva cristalina.

Pede pelo desatar dos meus nós
pela existência de uma estrela guia
que te aponte a evidência
do meu continuar.

Pede em todos os sinônimos
que couberem nas tuas súplicas
em todas as crenças e convicções
de que fores capaz
mas pede por mim.

Há de haver por entre céus mares e rios
alguém que acolherá o teu pedir.

24/10/2008
Imagem: Christian Schmidt/zefa/Corbis

26 de julho de 2009

Reinscrição desenhada


Nem sempre as poesias que posto no Dois Rios têm a ver com o que estou passando ou sentido. Muitas vezes posto uma poesia pela sua beleza intrínseca, ou então porque me toca, ou porque, de um certa forma, me identifico com as palavras do poeta. Outras vezes, como hoje, sinto que, se poeta fosse, teria escrito sem mudar uma vírgula sequer, todos esses versos. Amanhã, certamente, não me apetecerá a exatidão dos traços e nem a previsibilidade dos fatos. Mas hoje sim, me cairia muito bem uma ampla parede branca .



Dêem-me uma parede branca!
Quero reescrever-me
desde o início
Quero-me noutra história
em que eu invente o princípio
sem deixar nada ao acaso
Quero saber o que faço
e para quê
Quero ser dono do tempo, do espaço
desenhar as personagens
a cruzar no meu caminho

Quero ser o narrador
o dono, rei e senhor
de uma vida desenhada
a régua e esquadro
por - para - mim

Rui de Morais
(Ver InVerso)
Caminhante

Imagem: Inês/Dois Rios
(Hatillo-Ve)

 

9 de julho de 2009

A seca dos rios


Sem palavras, ainda que sejam as dos poetas. Sem idéias para harmonizar poemas e imagens, e sem um nada de ânimo para promover pesquisas, deixo a vocês, em retribuição aos carinhosos comentários deixados no post anterior, a lua que ontem debruçou-se na minha janela.

Até breve!
Inês
Imagem: Inês/Dois Rios

1 de julho de 2009

Existíamos



 










Enquanto nos abraçávamos,
existíamos antes, durante e
depois do futuro.

José Luís Peixoto
A Mulher de Negro


Imagem: Tomek Sikora/zefa/Corbis