28 de maio de 2009

Fica em mim















não te peço a direcção do vôo
mas fica em mim que somos aves medrosas e frágeis
e só o teu fogo redime o tempo contado

fica em mim. habita-me
e morrerei grávida de luz.

Isabel Coelho


Imagem: Narcis Virgiliu

25 de maio de 2009

Canção do amor demais














De ti fiz a harpa e a lira,
a guitarra.
Outra música não sei.

Albano Martins

O título deste post faz menção
a uma música de Tom e Vinícius.

Imagem: Steve Satushek

20 de maio de 2009

Resquícios


Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda.

Daniel Faria 
Pórtico / A casa dos cefeiros



Há aqueles que, além de ferirem, nem se preocupam em olhar para trás.
Ignoram de tal forma a dor do outro que ainda são capazes de
desferir um tiro de misericórdia com a arma da indiferença.


Imagem: Staffan Widstrand/Corbis



16 de maio de 2009

Re(a)colhimento















Quando eu te contar a verdade,
não diga nada.
Qualquer boa vontade,
será a vontade errada.

Quando eu te disser a verdade,
cale-se! Apenas ouça!
Palavras de louça,
frases rendadas
feitas de espuma,
enfumaçadas,
letras que escorrem
como areia pelos dedos
ou a bruma de um amanhã bem cedo.

Quando eu te falar a verdade,
não tenha medo!
Fica comigo no teu ouvido,
me acolha o colo que nunca dei,
me salgue as lágrimas que não chorei,
escuta o dito que não direi
e tudo que sobrar devido.

E me recolha em concha,
na ponta dos teus dedos,
no seio dos teus medos.

E quando a ostra, como é das ostras,
novamente se fechar,
aceite a trouxa ali recolhida,
e me deixe na praia,
no quebra mar,
entre as espumas,
as brumas e o litoral.

Quando eu te calar a verdade,
não me queira mal!
E guarde, pouco de mim,
em um canto dos olhos teus.

Me leve calada, contida,
no brilho de teu olhar,
a verdade dita,
o fim,
restos do eu.

Resto que deixo,
no teu calar.
O resto é seixo,
para Iemanjá.


José Eduardo Teixeira Leite
Imagem: Altrendo Nature



11 de maio de 2009

Palavra líquida


A maioria das doenças que as pessoas
tem são poemas presos.
...
Pessoas as vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
...
lágrima é dor derretida.

Viviane Mosé
Imagem: Rozu

7 de maio de 2009

O avesso do avesso


Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso das coisas. Não se trata de mentira. É que nós somos corpos dilacerados – “oh, pedaço arrancado de mim!”

O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está... O poeta escreve para invocar essa coisa ausente. Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade.

Rubem Alves
Cenas de Vida

Imagem: Photodisc

5 de maio de 2009

Decreto
















Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Thiago de Mello (mais sobre o poeta: aqui e aqui)
Estatuto dos Homens
(excerto) / Artigo III (a Carlos Heitor Cony)



Imagem: Eddy Rischepa/Corbis

27 de abril de 2009

E se...




E se te transformasses em pássaro?
Eu tranformava-me em céu, um vasto céu azul, com nuvens de fogo
nas pontas e sulcos de pétalas no centro; um fulgurante azul celeste
criado só para ver todo o fascínio do teu irromper.

E se te transformasses em água?
Eu transformava-me em fonte, ou talvez numa nascente, que a ânsia
de ver-te inundasse e nas paisagens que te vou escrevendo a minha
sede abrandasse.

E se te transformasses em estrela?
Uma imponente estrela de espuma com brilho de lava e gestos de
vento? Eu transformava-me em sombra, uma sombra incandescente,
onde tu: pássaro, água ou estrela, pudesses andar e na varanda de
minha espera, devagarinho, viesses pousar.

Victor Oliveira Mateus
(mais sobre o Victor)
em "Col. afectos: Amor", Labirinto.


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Desde que aportei pela primeira vez no blog A Dispersa Palavra, há quase um ano, tenho vontade de publicar uma poesia do meu amigo Victor (Oliveira Mateus), um poeta de versos exatos e peculiar sutileza. Pedi autorização, ele me acenou com um afetuoso "sim" e aqui, nas margens dos meus rios, compartilho com vocês a beleza de um de seus poemas.





23 de abril de 2009

Todo sentimento

José Eduardo T. Leite

Se fosse só sentir saudade.
Mas tem sempre algo mais. 

Angra dos Reis




20 de abril de 2009

Lembrança
















Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas,
e trouxeste a
manhã da minha noite.
...
ensinaste-me
a sermos dois;
e a ser contigo aquilo que sou,
até
sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide.


Nuno Júdice
Pedro, lembrando Inês

Imagem: Gosia Barta

13 de abril de 2009

Vou ali ser feliz e já volto

Ata Haluk Enacar


ontem chorei. por tudo que fomos. por tudo o que não conseguimos ser. por tudo que se perdeu. por termos nos perdido. pelo que queríamos que fosse e não foi. pela renúncia. por valores não dados. por erros cometidos. acertos não comemorados. palavras dissipadas. versos brancos. chorei pela guerra cotidiana. pelas tentativas de sobrevivência. pelos apelos de paz não atendidos. pelo amor derramado. pelo amor ofendido e aprisionado. pelo amor perdido. pelo amor. pelo respeito empoeirado em cima da estante. pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda-roupa. pelos sonhos desafinados. estremecidos. adiados. pela culpa. toda a culpa. minha. sua. nossa culpa. por tudo que foi. e foi. e voou. e não volta mais pois que hoje é já outro dia. chorei. eu chorei. apronto agora os meus pés na estrada. ponho-me a caminhar sob sol e vento. eles secam as lágrimas. vou ali ser feliz e já volto.


 Caio Fernando Abreu




8 de abril de 2009

Pois há futuro em nossas janelas


Pois há futuro em nossas janelas,
Como em minha boca, um gosto ocre,
Me pinta um amor de aquarelas
Que faz de teu fel um resto doce.

Embriagado de ti, em ti me rendo
Ao teu de mim desconhecido
Nem te perdendo, nem te vendo,
Me entrego cego, reconhecido.

E busco ternuras de calendário,
Aos teus encantos, por fim, rendido.
De mim mesmo, meu adversário,
Me perco em ti, seu teu querido.

E busco o doce em tuas mãos,
Nelas me agarro, sobrevivente,
Como quem nega a própria razão
Na desmedida que nos faz gente.

E à tua pele dou a tensão
De ser nela a pele minha.
E aqui te faço minha perdição,
Meu sonho, minha alquimia.

José Eduardo Teixeira Leite
Desejo Morte e Carambolas
Imagem: Alvaro Ennes

5 de abril de 2009

Revelação

Google Imagens


Queres saber quem sou?
Eu sou o que te olha e espia para te recolher
e depois guardar num lugar que é só meu.

...
Eu sou o que mergulha as mãos na tua vida
para sentir a minha voltar.

Pedro Paixão
Muito, Meu Amor





31 de março de 2009

O fruto de todas as estações

Rozu




Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua
e só depois
muito depois
se deixam morder.





28 de março de 2009

Espelho














Quero o teu coração para meu espelho,
pois no teu coração não me desminto.

Em Os quatro cantos do tempo, Obra Poética, 5ª

Imagem: Peter Frank/Solus/Veer/Corbis