Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo doeu-me onde antes os teus dedos foram aves de verão e a tua boca deixou um rasto de canções. ... Sentei-me na cama e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos, mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
Tu és a folha de outono voante pelo jardim. Deixo-te a minha saudade - a melhor parte de mim. Certa de que tudo é vão. Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão...
Ser capaz, como um rio que leva sozinho a canoa que se cansa, de servir de caminho para a esperança. ... Se tempo é de descer, reter o dom da força sem deixar de seguir. ... Como um rio, aceitar essas súbitas ondas feitas de águas impuras que afloram a escondida verdade nas funduras. Thiago de Mello Como um rio
Uma feroz tempestade varreu vidas, casas, pontes, ruas e estradas da serrafluminense. Eis a natureza cobrando, mais uma vez, um alto pedágio pelo descaso das autoridades diante de uma catástrofe amplamente anunciada.
A esperança é a única moeda que restou nos bolsos dos que, mesmo com o coração em frangalhos, precisam recomeçar.
Na tentativa de abrandarmos a dor dos que perderam seus entes queridos e suas casas, a solidariedade é, sem dúvida, o nosso melhor afago.
Lê,
estes são os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar.
Em caso de dor ponha gelo Mude o corte de cabelo Mude como modelo Vá ao cinema dê um sorriso Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo Se amargo foi já ter sido Troque já esse vestido Troque o padrão do tecido Saia do sério deixe os critérios Siga todos os sentidos Faça fazer sentido A cada milágrimas sai um milagre
Caso de tristeza vire a mesa Coma só a sobremesa coma somente a cereja Jogue para cima faça cena Cante as rimas de um poema Sofra penas viva apenas Sendo só fissura ou loucura Quem sabe casando cura Ninguém sabe o que procura Faça uma novena reze um terço Caia fora do contexto invente seu endereço A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal Chorar for inevitável Sinta o gosto do sal Gota a gota, uma a uma Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre A cada milágrimas sai um milagre.
Teorias à parte, creio que saiamos mais fortalecidos
depois que emergimos de um rio de lágrimas. Chorar
quando tudo deu errado, é a tomada de consciência
de que mudar seja uma margem alcançavel para
acolher quem ainda tem muito a nadar..
Horas, horas sem fim, pesadas, fundas, esperarei por ti até que todas as coisas sejam mudas. Até que uma pedra irrompa e floresça. Até que um pássaro me saia da garganta e no silêncio desapareça.
Esta vista de mar, solitariamente, dói-me. Apenas dois mares, dois sóis, duas luas me dariam riso e bálsamo. A arte da natureza pede o amor em dois olhares.
Fiama Hasse Pais Brandão As Fábulas
Não sei que mar é este,
nem que naviosencalham nas suas praias. Sento-me na sua margem.
Espero-te.
Certamente, não há nadade ti, sobre este horizonte, desde que ficaste ausente. Mas é isso o que me mata: sentir que estás não sei onde, mas sempre na minha frente.
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te. ... Tenho construído o teu nome com todas as coisas. tenho feito amor de muitas maneiras, docemente, lentamente, desesperadamente à tua procura, sempre à tua procura até me dar conta que estás em mim, que em mim devo procurar-te.
Uma borboleta pousou no corrimão bem ao meu alcance. Prendi-a pelas asas mas tremeu tanto que soltei-a. Saiu voando buleversada como se tivesse ficado cem anos presa. Nos meus dedos, o pó prateado. Tão breve tudo. Prendi assim a alegria, ainda há pouco foi minha mas se debateu tanto que abri os dedos antes que se ferisse, não se pode forçar. Um pouco mais que se aperte e não fica só o pó, mas a alma. Entro na minha concha.
Lygia Fagundes Telles
As meninas
O corpo roda: quer mais pele, mais quente. A boca exige: quer mais sal, mais morno. Já não há gesto que se não invente, ímpeto que não ache um abandono.
Deus
— talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.