7 de fevereiro de 2011

Tempos de seca



Os rios secaram e o meu barco padece numa
margem anoitecida, à espera de uma razão
que o mova.

Há-de haver!

Esperarei em silêncio.


Imagem: EIGHTFISH/Getty Images

1 de fevereiro de 2011

Canção de outono














Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
...
Sentei-me na cama e repeti devagar o teu nome,
o nome dos meus sonhos, mas as sílabas caíam
no fim das palavras, a dor esgota as forças,
são frios os batentes nas portas da manhã.

Maria do Rosário Pedreira


Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles
Canção de Outono


Oferecido pela Cristina Lira
do blog Silêncio





Imagem: Andrea Seifert/Corbis

15 de janeiro de 2011

Como um rio

Dedo de Deus/Teresópolis-RJ.

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
...
Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
...
Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Thiago de Mello
Como um rio


Uma feroz tempestade varreu vidas, casas, pontes, ruas
e estradas da serra fluminense. Eis a natureza cobrando, 
mais uma vez, um alto pedágio pelo descaso das autoridades
diante de uma catástrofe amplamente anunciada.

A esperança é a única
moeda que restou nos  bolsos dos que,
mesmo com o coração em   frangalhos, precisam recomeçar.

Na tentativa de abrandarmos a dor dos que  perderam 

seus  entes queridos e suas casas, a solidariedade é, sem
dúvida, o nosso melhor afago.

Vamos ajudar!
Projeto Doações
Imagem: Inês Queiroz / Dois Rios


11 de janeiro de 2011

Coisas que deixaste

Marta Laura Gliñska



Lê, estes são os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar.


Maria do Rosário Pedreira
Nenhum Nome Depois


E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

Florbela Espanca
Lágrima Oculta


8 de janeiro de 2011

A cada milágrimas sai um milagre


.
Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre.

Alice Ruiz e Itamar Assumpção
Milágrimas

Teorias à parte, creio que saiamos mais fortalecidos
depois que emergimos de um
rio de lágrimas. Chorar
quando tudo deu
errado, é a tomada de consciência
de que
mudar seja uma margem alcançavel para
acolher quem ainda tem muito a nadar..

28 de dezembro de 2010

Espera

Eleonorah



A noite chega de comboio.
Sou um astro sem brilho neste cais
onde espero há vinte e quatro horas
que não voltes mais.

Dois Poemas
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade
Espera


13 de dezembro de 2010

Revelação



Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar

Encontrará outro lá dentro.

Pois que o mate.

Elisa Lucinda
Safena

Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

Alejandra Pizarnik
Festa



Oferecido pela Verônica
do blog
Sensibilidade



Imagem: Terry Vine

29 de novembro de 2010

Olhar solitário


Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares.

Fiama Hasse Pais Brandão

As Fábulas


Não sei que mar é este,
nem
que navios encalham nas suas praias.
Sento-me na sua margem.
Espero-te.


Nuno Júdice
Cartografia de Emoções


Imagem: Emília Duarte/Olhares

21 de novembro de 2010

Passos perdidos



Praia repleta de rastros em mil direções
Penso que todos os passos perdidos são meus.

Renata Maria

Viajo sozinha com o meu coração
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

Despedida





Oferecido pela Gisa do blog






Imagem: Sídio Júnior


10 de novembro de 2010

Deixa-me inventar-te


Certamente, não há nada de ti,
sobre este horizonte,

desde que ficaste ausente.

Mas é isso o que me mata:
sentir que estás não sei onde,
mas sempre na minha frente.

Cecília Meireles
Canção do Mundo Acabado


Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
...
Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente,
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura

até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te.

Joaquim Pessoa

Poeta, pintor e publicitário

Imagem: Heide Benser/Corbis


Oferecido pela Cristiane
do blog Meu Olhar Caleidoscópio
.

O intuito deste selo é promover a
harmonia e o respeito na blogosfera.




6 de novembro de 2010

O voo da alegria

Deviantart/: ~icyblush 

Uma borboleta pousou no corrimão bem ao meu alcance. Prendi-a pelas asas mas tremeu tanto que soltei-a. Saiu voando buleversada como se tivesse ficado cem anos presa. Nos meus dedos, o pó prateado. Tão breve tudo. Prendi assim a alegria, ainda há pouco foi minha mas se debateu tanto que abri os dedos antes que se ferisse, não se pode forçar. Um pouco mais que se aperte e não fica só o pó, mas a alma. Entro na minha concha.

Lygia Fagundes Telles

As meninas



2 de novembro de 2010

Tu e eu


Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.
Tu e eu, leões estirados ao sol,
harpa para os nossos dedos quentes,
poema numa sala de lâminas.

Nós estamos aqui para fugir,
nós estamos aqui para chegar de vez.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Rosa Lobato de Faria



Oferecido pela Cristiane do blog
Meu Olhar Caleidoscópio
e pela Verônica do blog
Sensibilidade



Google Imagens
(desconheço a autoria)


25 de outubro de 2010

Regando a saudade




Basta uma lágrima cheia 
De uma saudade de tudo.

Afonso Lopes Vieira
Cancioneiro III

..... ..........;;;;;;;;;;;...;;;;;;;.....a propósito...


Deviam chover lágrimas quando
 o coração nos pesa muito.

António Lobo Antunes
Ontem Não te Vi em Babilónia

Imagem: Maciej Toporowicz, NYC/Getty Images




19 de outubro de 2010

Um mar depois do mar


Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito
e a noite se faz barco,
e a minha mão marinheiro.

Eugénio de Andrade
Arte de Navegar

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto
O amor, meu amor


Imagem: David de Lossy/Getty Images

11 de outubro de 2010

O amor


Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti.


Nuno Júdice



Imagem: Burazin/Getty Imagens