18 de abril de 2012

Melancolia

Christof Wermter-zefa-Corbis





Breve arquitetura da melancolia.
 Lágrima, apenas.


Eugénio de Andrade
Coração do Dia





9 de abril de 2012

Estrelas

Vicent Van Gogh / Starry Night Over the Rhone


Apaga as estrelas, vem dormir comigo  no esplendor
da noite do mundo que nos foge. 

O último coração do sonho

Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão.
Guarda a Manhã


30 de março de 2012

A curva da estrada



Num breve encontro entre grandes constelações, Fernando Pessoa poetizou: "Morrer é a curva da estrada. Morrer é apenas não ser visto"; Millôr, então, retrucou: "Só se morre uma vez. Mas é para sempre."; Chico veio no rastro e disse: "Não tenho medo de morrer. Tenho pena."; Então, Jobim, para encerrar a conversa em Sol Maior, cantou: "São as "lágrimas" de março fechando o verão."




ando tão preguicenta com o blog que, para não deixá-lo à deriva e, 
principalmente, em respeito aos amigos que sempre aportam por esses 
rios, resolvi fazer uma dobradinha entre o Facebook e blog para, assim,
 não deixá-lo de todo, sem as minhas digitais.  a passos lentos vou,
 pouco a pouco, retribuindo o carinho das visitas.




21 de março de 2012

Silêncio

Pascal Renaux


Eu nasci para estar calado. A minha única vocação é o silêncio. Foi 
meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para
apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um  único 
silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto,  eu não
 estava pasmado. Estava desempenhado, de alma  e corpo ocupados: 
tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. 
Eu era um afinador de silêncios.
Jesusalém



9 de março de 2012

Ilusão

 
Flickr

O outono o que é para mim o outono?
O outono é a suspeita de que tudo acaba
de que a exaltação do verão é uma ilusão.

Ruy Belo

Meditação Anciã/Todos os Poemas Vol.III


Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras
no Verão.

Rui Pires Cabral
Escuro

 

4 de março de 2012

Da minha janela

Inês Queiroz


Eu rabisco o sol que 
 a chuva apagou.

Giz


26 de fevereiro de 2012

Miragem

Marta Glinska

Não direi que a tua visão desapareceu dos meus olhos sem vida 
Nem que a tua presença se diluiu na névoa que veio.
Vieste – tua sombra sem carne me acompanha
Como o tédio da última volúpia.
Vieste – e contigo um vago desejo de uma volta inútil
E contigo uma vaga saudade…
És qualquer coisa que ficará na minha vida sem termo
Como uma aflição para todas as minhas alegrias.
Tu és a agonia de todas as posses
És o frio de toda a nudez
E vã será toda a tentativa de me libertar da tua lembrança.


Miragem


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13 de fevereiro de 2012

Perdoa este amor

Tetra Images/Getty Images



Perdoa a riqueza deste amor
sem sedas nem brocados
a fragilidade deste mundo sem orientes
nem senhas nem tratados
e esta resma de escritos imperfeitos
em que invariavelmente falo de ti
mesmo quando não é de ti que falo.


Poesia Vadia / Inês * Pedro * Amor * Paixão




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7 de fevereiro de 2012

The long and winding road


Penso: quando você não tem amor,
você ainda tem as estradas.
Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar.

Florbela Espanca
Não Ser


   Título: Lennon & McCartney


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30 de janeiro de 2012

Invisibilidade

Yuri Bonder



Essa dor que quando olhas
não compreendes por que não
é de fratura exposta
é de amor sem resposta
a solidão ninguém vê.
 
Líria Porto
Invisibilidade
Dê-me o esquecimento, meu pai.
Dê-me uma noite sem sombra
ou sobressalto, um sono inteiro
um instante sem rumor.
Dê-me teu silêncio, meu pai.
A solidez das pedras, o rigor das coisas
a solidão sem dor.

Prece 



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23 de janeiro de 2012

Dando voz à preguiça


daqui


Eu gosto tanto, tanto, tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.

Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.

Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim .

E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.

Álvaro de Magalhães
Fala a preguiç

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18 de janeiro de 2012

Asas da solidão



Nunca houve palavras para gritar a tua ausência.
Apenas o coração pulsando a solidão antes de ti
quando o teu rosto doía no meu rosto e eu
descobri as minhas mãos sem as tuas...

De Onde Chegam Estas Palavras?
Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.


Alejandra Pizarnik
La Carencia/Las Aventuras Perdidas
(tradução: Carlos Machado)

 ===

Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.


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15 de janeiro de 2012

Metade de mim

Fotolog/Aida_sqt


A laranja cortada ao meio,
úmida de amor, anseia pela outra...
É assim, é bem assim que eu te desejo.
Preparativos de Viagem 




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9 de janeiro de 2012

Ângulo

Weheartit / Bruna Kaercher


Mudar o ângulo
para não perder a faculdade
de estranhar. 


Maria José Quintela





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4 de janeiro de 2012

[Des]esperar


Flickr / Wendy aka Gwen2010




No relógio da sala não uma e meia nem sete nem quatro,
trinta e oito da madrugada, duzentas e onze da manhã, 
e uma escuridão infinita.


António Lobo Antunes
Eu Hei-de Amar uma Pedra  
Há muito tempo que te espero.
Há muito tempo que não vens.


José Luís Peixoto
A Criança em Ruínas 

Amigos,
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Estou em falta com quase todos os que comentaram nos dois últimos posts. 
Retribuirei, na medida do possível.