31 de janeiro de 2013

Balança

Diamond Sky Images 



No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.


Eugénio de Andrade
Balança
Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.

Dilema




30 de janeiro de 2013

Confluência Passional

Haleh Bryan




















Imaginem rios que se gostem
e se encostem longos de desejos
e se encontrem prontos de ternura
se misturem cada vez mais beijo
e se deixem em êxtase de espuma
troquem águas, algas, mágoas, peixes...


Confluência Passional/O Embenedário Diverso




28 de janeiro de 2013

Apenas um nome

B. Berenika


Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não acende senão em tua boca.

Antes de Nascer o Mundo




23 de janeiro de 2013

Ponte de estrelas


Cynthia Whitman 
(óleo sobre tela)




Entre a minha casa e a tua,
Há uma ponte de estrelas.
Uma ponte de silêncios.

Mário Quintana
Caderno H
Vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao meu lado,
porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas.

Pornografia Erudita





21 de janeiro de 2013

Diferença

Kevin Kruff/Corbis



O que me interessa é a diferença.
Interessa-me a voz das margens, 
a poesia dos rebeldes, 
dos bêbados, dos discriminados, 
tipos que não encontram 
quem os ouça e que têm
a verdadeira experiência 
dos abismos.

Inês Pedrosa
Nas tuas mãos



14 de janeiro de 2013

Silêncio

Ewa Brzozowska


Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

Maria do Rosário Pedreira


com o tempo, as mãos, as tuas,
cairão também no esquecimento.
E delas restará apenas uma sensação
de ardor sobre a minha pele.

Al Berto
Lunário



7 de janeiro de 2013

Liquidação

Corbis



A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em vias de cometer
a casa foi vendida com seu bater de portas
com seu vento encanado sua vista do mundo
seus imponderáveis
por vinte, vinte contos.

Carlos Drummond de Andrade

Boitempo

17 de dezembro de 2012

Silêncio


Pascal Renaux



Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago
No Silêncio dos Olhos


Entre mim e o meu silêncio
 há gritos de cores estrondosas
e magias recortadas dos sonhos
 que acontecem naturalmente.

A Criança em Ruínas





11 de dezembro de 2012

A dor e o tempo



Primeiro,
nenhum sentimento me doía.
Depois ,
fui sentindo a dor.
Agora,
dói-me sentir.
Ser novo
é estar longe de tudo
e tocar o que se sonha.
Ter idades
é estar perto de tudo
e não tocar
senão esse turvo espelho:
saudades.

Idades, Cidades e Divindades




10 de dezembro de 2012

Primavera





Rosas miúdas: cores
contra o azul.
Era tão-somente
o lençol.
Mas que teu corpo nu,
estendido por sob,
supunha ser,
imagino assim,
a primavera.

É o que explicaria, talvez,
o modo ameno de os seios
e tudo o mais
respirarem como águas de um lago.
Águas meio animais:
mansos cães dormindo.
Ou: caminhando.
Devagar,
por entre aleias.


Desassombro




3 de dezembro de 2012

Tua voz

 Oleg Videnin


Apago todas as mensagens. Menos as tuas.
Guardo a tua voz em pequenas doses e, 
dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. 
Sinto-me demasiado incapaz para falar 
contigo o que quer que seja.
Não sei onde estás. Não quero saber. 
Tenho medo de saber mais do que sei. 
Uma dor de cada vez basta.

Saudades de Nova Iorque
tenho os olhos cansados
de compreender
em que ponta de pedra
se equilibra a razão.


Silvia Chueire
Uma face


1 de dezembro de 2012

Tragando a vida

Lew Robertson/Corbis




São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados


Carlos Pena Filho
Chopp





27 de novembro de 2012

Dias quebrados na cintura

Marta Glinska



Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,  
dói-me o mundo.
Há dias que são como espaços 
preparados para que tudo doa.  
Só deus não me dói hoje.  
Será porque hoje ele não existe?

Roberto Juarroz

Um poema

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
  os meus dias quebrados na cintura.

Eugénio de Andrade
 

As Palavras Interditas 


25 de novembro de 2012

Ilha




Deitada és uma ilha.
Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada
eu morro da vida
que me dás todos os dias.





23 de novembro de 2012

De volta ao começo

Inês Queiroz


Os natais na casa da minha irmã eram fartos de comes e bebes, música, presentes, alegria e amor. Bailava-se salsa, sambava-se, bolerava-se e assistia-se ao meu sobrinho Dani abrir os braços e cantar em alto e bom som: "Viver, e não ter a vergonha de ser feliz...".

A árvore era imensa, e o ritual de abrir o baú a fim de retirá-la, armá-la, rodeá-la de luzinhas e distribuir os adornos pela casa era, também, motivo de grande euforia.

Já o ano de 2002 - o ano da morte do Dani - foi diferente. O baú foi aberto, não pelos motivos citados, mas sim para que fossem doados todos os vestígios de felicidade que, outrora, foram guardados ali. Nunca mais houve árvores, luzinhas, enfeites, danças e músicas. 

Depois desse longo e árduo período recebo, emocionada, via celular, duas fotos e uma pequena mensagem que dizia: "Minha primeira Árvore de Natal depois de 10 anos".

Agora sou eu quem abre os braços e canta: "Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita, é bonita e é bonita".