7 de outubro de 2013

Promete-me

Koya Takeshita



Promete-me que amanhã virá a lua e que,
na imensidão da noite iluminada,
cantaremos o mar um para o outro.
Promete-me que no fim terei existido.

Um Mover de Mão
Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.

As Mãos e os Fruto




26 de setembro de 2013

Hora antiga

Deviantart


Às vezes, de repente, no fundo dos espelhos
havia um brilho que era o brilho
duma hora antiga.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Contos Exemplares, Portugália
Mas horas há que marcam fundo
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo.
Assim a vida nos afeiçoa



2 de setembro de 2013

Imensa

Google





Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar

Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo


Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão





20 de agosto de 2013

A Arte de Perder

Chris Rogers/Corbis


A arte de perder não tem mistério;
Com tantas coisas propensas a serem perdidas,
A perda delas não é nenhum desastre.
...
Comece então a perder mais, e mais depressa;
Lugares, nomes e o destino de sua viagem.
Não é nenhum desastre.
...
Eu perdi duas cidades, muito queridas. E, mais ainda,
Alguns domínios que eu possuía, dois rios e um continente.
Sinto falta deles, mas não foi nenhum desastre.

Perder você inclusive (sua voz gozadora,
um traço que adoro) não me fará mentir. É evidente
Que a arte de perder não tem lá tanto mistério,
Embora pareça (escreva a palavra!) um desastre.


Elizabeth Bishop


6 de agosto de 2013

Ausência

NSMBL



Você prometeu que estaria no outro trapézio quando eu soltasse o meu, não prometeu? Por isso eu balançava de olhos fechados. Sem medo. Por isso eu ficava de cabeça pra baixo nesse pedaço de madeira suspenso por duas cordas. Você garantiu que me seguraria pelos dois punhos e me levaria para o outro lado. Que haveria alguém no fim do meu salto. Você juntou os pés e jurou que não me deixaria cair nesse número sem rede. Com a cara no picadeiro. Foi por acreditar em você que gasto mais uma das minhas vidas. Morro mais uma vez pela sua ausência.
Eduardo Baszczyn
Desamores



23 de julho de 2013

Partida

Google


Cumprias distâncias em mim.
Madrugando não alcançaria.

Venho da tua lonjura, os braços 
eram remos no barco e aço de âncora.
Acostumado à extensão das raízes,
não sobrevivo no vaso dos pés.

Passei a vida aprendendo a respeitar teu espaço.
Como povoá-lo após a tua partida?

Caixa de Sapatos
Só porque a Adri Aleixo pediu.


14 de julho de 2013

Azul



Chis Deeney


Se o azul é um sonho,
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

Obra Poética Completa/Tradução de William Agel de Mello

 

1 de julho de 2013

Desígnios

Gettyi Images/Sami Sarkis


Alguém pode me dizer
se estava prevista na palma da minha mão
esta paixão inesperada
se já estava escrita e demarcada
na linha da minha vida
se fazia já parte da estrada
e tinha que ser vivida

ou foi um desgoverno repentino
que surpreendeu os deuses, todos
os que desenham nosso destino
ou foi um desatino, uma loucura
uma imprevisível subversão
que só a partir de agora eu trago marcada
na palma da minha mão.

18 de junho de 2013

A pele é o espelho da memória



Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move. 


Luis Miguel Nava
Poesia Completa 1979-1994

Com o tempo, as mãos, as tuas, 
cairão também no esquecimento.
 E delas restará apenas uma sensação 
de ardor sobre a minha pele.

Lunário



12 de junho de 2013

Eterna companheira

daqui
  
Quando estou sozinho no bar, não deixo
que retirem as cadeiras vazias.
A esperança me faz companhia.






22 de maio de 2013

Cais

Kevin Muggleton/Corbis




Disse-te adeus e morri
E o cais vazio de ti
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
Roubaram dos meus sentidos
A gaivota que tu és.

Disse-te adeus e morri

De volta ao convés, reabro
o diário de bordo. E o barco continua parado
no oceano sem porto.

Geometria Variável




18 de maio de 2013

Escrevo-me nas palavras

Weheartit



Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridículas: amor, esperança, estrelas, e nas palavras mais belas: claridade, pureza, céu. Transformo-me todo em palavras.

José Luis Peixoto
Uma Casa na Escuridão




15 de maio de 2013

Paisagem diluída



Foi tão comprido o túnel da noite
e o trem do dia
Entrou com atraso na estação.
Adormeci num banco ao relento
para esperar-te.
Um molho de violetas exaustas
Expirou entre os meus dedos.


Maria de Lourdes Hortas
Paisagem diluída


Nunca houve palavras para gritar a tua ausência.
Apenas o coração pulsando a solidão antes de ti 
quando o teu rosto doía no meu rosto e eu
descobri as minhas mãos sem as tuas.


Joaquim Pessoa
De Onde Chegam Estas Palavras?




29 de abril de 2013

Viagem

Paulo de Sousa


Guardo, na minha pele, esta viagem. 
Para sentir o lento movimento dos dias.

Uma coisa é habitar a pele, 
outra, ter a noite por fragata.

Viagem



22 de abril de 2013

Por ti

Pascal Renaux


Por ti diria tudo ou quase nada
Se não fosse esta fome esta saudade
De ser eterna
Madrugada
Ou ser precária
Eternidade

Por ti
Por ti desço até ao fundo da noite,
desenraízo o tempo, culmino numa estrela,
vivo na imaginação de todas as aves
e acendo o futuro, num gesto antecipado.

Albano Martins
O Futuro em Anos-Luz