28 de dezembro de 2010

Espera

Eleonorah



A noite chega de comboio.
Sou um astro sem brilho neste cais
onde espero há vinte e quatro horas
que não voltes mais.

Dois Poemas
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade
Espera


13 de dezembro de 2010

Revelação



Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar

Encontrará outro lá dentro.

Pois que o mate.

Elisa Lucinda
Safena

Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

Alejandra Pizarnik
Festa



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do blog
Sensibilidade



Imagem: Terry Vine

29 de novembro de 2010

Olhar solitário


Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares.

Fiama Hasse Pais Brandão

As Fábulas


Não sei que mar é este,
nem
que navios encalham nas suas praias.
Sento-me na sua margem.
Espero-te.


Nuno Júdice
Cartografia de Emoções


Imagem: Emília Duarte/Olhares

21 de novembro de 2010

Passos perdidos



Praia repleta de rastros em mil direções
Penso que todos os passos perdidos são meus.

Renata Maria

Viajo sozinha com o meu coração
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

Despedida





Oferecido pela Gisa do blog






Imagem: Sídio Júnior


10 de novembro de 2010

Deixa-me inventar-te


Certamente, não há nada de ti,
sobre este horizonte,

desde que ficaste ausente.

Mas é isso o que me mata:
sentir que estás não sei onde,
mas sempre na minha frente.

Cecília Meireles
Canção do Mundo Acabado


Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
...
Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente,
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura

até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te.

Joaquim Pessoa

Poeta, pintor e publicitário

Imagem: Heide Benser/Corbis


Oferecido pela Cristiane
do blog Meu Olhar Caleidoscópio
.

O intuito deste selo é promover a
harmonia e o respeito na blogosfera.




6 de novembro de 2010

O voo da alegria

Deviantart/: ~icyblush 

Uma borboleta pousou no corrimão bem ao meu alcance. Prendi-a pelas asas mas tremeu tanto que soltei-a. Saiu voando buleversada como se tivesse ficado cem anos presa. Nos meus dedos, o pó prateado. Tão breve tudo. Prendi assim a alegria, ainda há pouco foi minha mas se debateu tanto que abri os dedos antes que se ferisse, não se pode forçar. Um pouco mais que se aperte e não fica só o pó, mas a alma. Entro na minha concha.

Lygia Fagundes Telles

As meninas



2 de novembro de 2010

Tu e eu


Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.
Tu e eu, leões estirados ao sol,
harpa para os nossos dedos quentes,
poema numa sala de lâminas.

Nós estamos aqui para fugir,
nós estamos aqui para chegar de vez.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Rosa Lobato de Faria



Oferecido pela Cristiane do blog
Meu Olhar Caleidoscópio
e pela Verônica do blog
Sensibilidade



Google Imagens
(desconheço a autoria)


25 de outubro de 2010

Regando a saudade




Basta uma lágrima cheia 
De uma saudade de tudo.

Afonso Lopes Vieira
Cancioneiro III

..... ..........;;;;;;;;;;;...;;;;;;;.....a propósito...


Deviam chover lágrimas quando
 o coração nos pesa muito.

António Lobo Antunes
Ontem Não te Vi em Babilónia

Imagem: Maciej Toporowicz, NYC/Getty Images




19 de outubro de 2010

Um mar depois do mar


Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito
e a noite se faz barco,
e a minha mão marinheiro.

Eugénio de Andrade
Arte de Navegar

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto
O amor, meu amor


Imagem: David de Lossy/Getty Images

11 de outubro de 2010

O amor


Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti.


Nuno Júdice



Imagem: Burazin/Getty Imagens




8 de outubro de 2010

Acho que não sou daqui



















paro em sinal vermelho
observo os prazos de validade
bato na porta antes de entrar
sei ler, escrever
digo obrigado, com licença
renovo o passaporte
não engano no troco
até aí tudo bem
mas não sou daqui
também
porque não gosto de samba
de carnaval, de chimarrão
prefiro tênis ao futebol
não sou querida, me atrevo
a cometer duas vezes o mesmo erro
não sou de turma
a cerveja me enjoa
prefiro o inverno
e não me entrego
sem recibo

Martha Medeiros

Poesia Reunida


subscrevo e digo mais:
não jogo lixo na rua
detesto shoppings e
salões de beleza
prefiro vinho a chopp
acordo de bom humor
ouço sem interromper
e não me dou por vencida
nem com recibo.

Imagem Google
(desconheço a autoria)

7 de outubro de 2010

Inverno


O inverno desliza
no corpo que espera.
...
desde que se foi o meu amado
não há almíscar,
o perfume desertou a vida,
o vinho não sabe a prazer.
já não me acolhe, a noite,
é escuridão sem voz .

O vento não se oculta no deserto,
nem fala aos meus quadris
nenhuma dança.

desde que se foi o meu amado
o inverno não se cansa de ser eu.

Silvia Chueire

eu
que longe de ti sou fraca
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta
.

Mia Couto
Saudade

Imagem: Keiichi Tsuji/amanaimages/Corbis

14 de setembro de 2010

Janela da alma



Quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não.existem, outros. que só existem diante das minhas janelas,  e outros, finalmente, que é  preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles
A Arte de Ser Feliz


A diferença se encontra no lugar
onde os olhos são guardados.

Rubem Alves
A Complicada Arte de Ver





Diante das nossas janelas há uma permanente tela. Nós somos os pintores. Dar às paisagens tons de azul ou cinza vai além do ato de fitá-las. "Ver" não é uma capacidade. É um sentimento. É a alma transcendendo o olhar.




À minha irmã Alana
pelas janelas ensolaradas de Paraty.



Imagem: Paraty/RJ

8 de setembro de 2010

Apenas um nome



















Vês como fico pequena quando escrevo para ti?
É por isso que nunca poderia ser poeta.
O poeta se engrandece perante a ausência,
como se a ausência fosse o seu altar,
e ele ficasse maior que a palavra.
No meu caso, não, a ausência me deixa
submersa, sem acesso a mim.
Este é o meu conflito: quando estás
não existo, ignorada.
Quando não estás, me desconheço,
ignorante. Eu só sou na tua presença.
E só me tenho na tua ausência.
Agora, eu sei. Sou apenas um nome.
Um nome que não se acende senão
em tua boca...

Mia Couto
 
Jesusalém
 

Nosso céu, onde estrelas cantavam,
de repente ficou mudo.

Haroldo Barbosa e Luiz Reis


no 8 de setembro


1 de setembro de 2010

Sem margens



Explicar com palavras deste mundo que partiu
de mim um barco levando-me.

Alejandra Pizarnik
Árbol de Diana
Navego pela memória
sem margens.

Cecília Meireles

Explicação




Imagem: Scott Stulberg/Corbis


22 de agosto de 2010

Por ti adentro

Vincent Besnault/zefa/Corbis



Depois do amor o olhar é outro.
E como é calmo e sereno o olhar do amor cumprido!

Miguel Ângelo


agora tu eras como o tempo despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente
lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor.

Valter Hugo Mãe
O Resto da Minha Vida seguido de A Remoção das Almas



16 de agosto de 2010

Um mar de poucas palavras



Se o mundo não tivesse
palavras

a palavra do mar,
com toda a sua paixão,

bastava.
Não lhe falta
nada:
nem o enigma
nem
a obsessão.
Entregue ao seu ofício

de grande hospitaleiro
o mar é um animal
que se refaz

em cada momento.
O amor também.
Um mar

de poucas palavras.

Casimiro de Brito
Fragmento 117 do Livro das Quedas



Navegando nas ondas metafóricas do poeta, eu diria que o mar,
com todos os seus encantos e mistérios, assim como seus recorrentes movimentos de
subida/descida, avanço/recuo, começo/fim/recomeço, braveza/serenaridade, ida/volta... nada mais é do que a própria vida em estado líquido.



Imagem: Getty Images/Frederic Cirou (modificada)

3 de agosto de 2010

E era por ti!


E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

Cecília Meireles
Canção A Caminho do Céu




A saudade do amor é de outra natureza:
viva, pulsante, lançada sempre no futuro, sempre,
eu tinha saudade de ti quando te esperava.
Nunca no passado

Eugénia de Vasconcelos



Oferecido pela Gaby Shiffer
do blog Coisas de Mulher




23 de julho de 2010

Poder

















Tens o poder de trazer ao dia
a música do meu corpo.
a música dos nossos corpos
debruçados um sobre o outro
e sobre as horas,
a cidade,
o vento.

Tens nas tuas mãos fluidas
o poder que mal sabes,
de alterar as marés
que me atravessam.

Silvia Chueire

Imagem: Gil Lemos

16 de julho de 2010

Trapezista



Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirava do alto na certeza que alguém segurava-me as mãos não me deixando cair. Era lindo, mas eu morria de medo, tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo. Do que não ficava para sempre.

Antônio Bivar
extraído do disco Drama 3º Ato, de Maria Bethânia



Ainda que a palavra "medo" se repita tantas vezes no texto
de uma forma concreta, a minha intenção ao publicá-lo,
refere-se ao medo que está nas entrelinhas.
Medo do fim. Da perda. Da separação. Do "nunca mais".
Medo que não se vê e não se toca, mas se (pres)sente.
Medo do que não fica para sempre.



Imagem: Dewitt Jones/Corbis




Oferecido pela Insana
do blog Gritos e Sussurros





5 de julho de 2010

Sem norte

.
Ainda que eu pegasse
o mesmo velho trem,
ele não
me levaria
a ti, que não és mais.

José Paulo Paes / Revisitação

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há
.

Alejandra Pizarnik / Voz Mendiga
---

En mi mirada lo he perdido todo.
Es tan lejos pedir. Tan cerca saber que no hay.


Imagem: Geoff-Barrenger



Oferecido pelo Tarcísio
do blog On The Rocks



28 de junho de 2010

A essência da espera




Para sempre me ficou esse abraço.
Por via desse
cingir de corpo minha vida se mudou.
Depois desse
abraço trocou-se, no mundo,
o
fora pelo dentro.

Agora,
é dentro que tenho pele.
Agora, meus olhos se abrem apenas
para as
funduras da alma.

Nesse reverso, a poeira da rua
me suja é o coração.
Vou perdendo noção de mim,
vou desbrilhando.

E se eu
peço que ele regresse é para sua
mão peroleira me descobrir ainda
cintilosa por dentro.

Todo este tempo me
madreperolei,
em enfeitei de lembrança.

Mas o homem de minha paixão se foi
demorando tanto que receio me acontecer
como à ostra que vai engrossando tanto a casca
que morre dentro de sua própria prisão.


Mia Couto 

A Cantadeira
do livro Na Berma de Nenhuma Estrada


Agradeço a Ava, do blog
Minhas Vidas, pela idéia do título
.


Imagem: Thomas Northcut/GettyImages

24 de junho de 2010

União


 













Nos meus braços teu corpo estremeceu,
Desse tremor o meu foi percorrido.
Colados, curva a curva, onde começa o teu?
Onde se acaba o meu? Teu e meu têm sentido?
...
Brandamente, por vezes, te desvio
de mim, para melhor, depois, sentir
que és bem tu que eu agarro, acaricio,
bem tu que eu pude, em mim, fundir.

José Régio

Imagem: Trinette Reed

22 de junho de 2010

Alto-mar

Edward Hopper[Rooms by the Sea]



Esta noite tive um sonho, conheci um homem
que tinha o mar no lugar do coração e quando
sentia o seu corpo contra o meu,
ouvia lá fora a fúria do mar.

Al Berto


Senhor, enche o meu quarto
de alto mar.

Filipa Leal
O Princípio da Oração
do livro O Problema de Ser Norte







30 de maio de 2010

A partitura de um toque


 


se eu tocasse
um instrumento
saxofone
um movimento de jazz
talvez
acompanharia
coadjuvante
as variações
dos meus olhos
descendo e subindo
cabelos ombros e fendas
por isto toquei suas costas
que ouviram
da minha mão
aquele solo
que me descompôs
não sei de partituras
muito menos de cifras
mas tenho nos meus dedos
cinco notas inacabadas
um dia vou soprá-las
no seu corpo
será
a um só tempo
minha iniciação e sintonia.

Al-Chaer
Decote


Imagem: Vadim Stein


17 de maio de 2010

Única paisagem












 
 









Agora há uma dor que pousa nas palavras.
Não as digas – um nome basta para
dividir o coração. Se me esqueceste entre
um livro e outro, finge que não sei; despede-te
de mim como uma lâmpada antiga, deixa que
a tua sombra seja a minha única paisagem.

Maria do Rosário Pedreira
Nenhum Nome Depois.


Imagem: Lieutenant Tibs